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title: Sua fatia de bolo pode estar dando prejuízo — e o motivo não é o preço baixo
canonical: "https://uebi.com.br/blog/fatia-de-bolo-pode-estar-dando-prejuizo/"
pubDate: 2026-09-04
updatedDate: 2026-09-04
author: Wilder Amorim
description: "Como calcular o preço de venda de bolo, torta ou salgado: ficha técnica de custo, imposto, taxa do iFood e margem de lucro, com tabela completa."
tags: [Alimentacao, Gestao-financeira, Margem-de-contribuicao, Pequenos-negocios, Precificacao]
categories: [Dinheiro]
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Marcela abre a doceria às sete da manhã. Às dez, o balcão de tortas já tem fila — a de morango, a mais pedida, some rápido, trinta fatias vendidas antes do almoço num dia bom. No fim da tarde, ela conta o dinheiro da caixa e sorri: foi um dia cheio.

No fim do mês, a conta não fecha do mesmo jeito. Sobrou pouco, de novo. Ela vendeu mais do que no mês anterior, mas o dinheiro que sobra pra ela é quase o mesmo. Marcela nunca calculou quanto custa, de verdade, uma fatia de torta — ela olhou o preço do concorrente, arredondou pra um número que "parecia certo", e segue vendendo assim há dois anos.

Marcela é hipotética, mas o padrão é real: quem vende comida — bolo, salgado, marmita, lanche — raramente calcula o custo exato do que vende. Descobre se deu lucro olhando o saldo no fim do mês, quando já é tarde pra corrigir qualquer coisa.

Este artigo ensina a conta inteira: quanto custa cada insumo por porção, onde entram a embalagem, a mão de obra, a energia elétrica, o imposto e a taxa de quem vende por aplicativo — e como transformar isso num preço que sobra dinheiro no fim do mês. Se o que você vende é serviço, não produto físico, o raciocínio de fundo é o mesmo — [veja como calcular o preço de um serviço sem chutar](https://uebi.com.br/blog/como-calcular-preco-de-servico-sem-chutar/) —, mas aqui vamos fundo no que muda quando o que você vende tem ingrediente, embalagem e validade.

## Por que vender bem não é o mesmo que lucrar

Fila no balcão não é sinônimo de lucro. Um negócio pode vender mais a cada mês e, ainda assim, ganhar cada vez menos — porque o volume de vendas cresce, mas cada venda individual perde um pouco de dinheiro sem que ninguém perceba.

### O erro de olhar só pro preço do concorrente

Copiar o preço de quem vende do lado é o atalho mais comum, e o mais arriscado. O concorrente pode ter aluguel menor, pode fazer a receita com menos insumo, ou pode estar cobrando errado também, sem saber. Usar o preço alheio como referência é decidir o seu preço com a estrutura de custo de outro negócio — não a sua.

### O erro do preço "de cabeça"

A segunda forma mais comum de errar é decidir o preço pela sensação: "isso aqui vale uns doze reais". Esse número nasce de uma mistura de intuição com vergonha de cobrar caro, e quase nunca inclui o que não aparece na hora de comprar o ingrediente — o tempo de preparo, a energia do forno, o imposto que chega depois.

### Os dois sinais de quem está precificando no escuro

Dois sintomas aparecem antes de qualquer prejuízo ficar óbvio. O primeiro é vender mais em um mês e sobrar a mesma coisa, ou menos, no fim dele. O segundo é não saber, sem abrir uma calculadora, quanto custa o produto que mais sai do balcão. Se um dos dois é verdade no seu negócio, o problema não é quanto você vende — é que você não sabe quanto custa vender.

## O que realmente compõe o custo de uma fatia de bolo

A maior parte de quem precifica comida calcula só uma coisa: o preço dos ingredientes. É o item mais visível, porque aparece na nota do mercado — mas é só uma fatia do custo real, e normalmente nem a maior.

### Ingredientes — o cálculo é por porção, não pela receita inteira

O erro mais comum aqui não é esquecer um ingrediente. É calcular o custo da receita inteira e parar por aí, sem dividir pelo número de porções que ela rende. Uma torta que custa R$ 41,80 pra fazer parece cara — mas se ela rende 12 fatias, cada fatia carrega R$ 3,48 de ingrediente, não R$ 41,80. É esse número por porção que entra na conta do preço, sempre.

### Embalagem — o item que quase todo mundo esquece

Saquinho, caixa, etiqueta, talher descartável: cada um tem um custo, mesmo que pequeno, e cada um se repete em toda venda. Uma embalagem de R$ 0,90 parece irrelevante isolada, mas em 300 vendas no mês são R$ 270 que saem do caixa antes de qualquer lucro aparecer — e é um custo que a maioria nem lança na conta, porque "é só uma embalagem".

### Mão de obra — o seu tempo tem preço, mesmo sendo você

Se um funcionário levasse 1h20 pra fazer a receita, isso teria um custo óbvio: o salário da hora dele. Quando é a própria dona que faz, esse custo desaparece da conta, mas não desaparece da realidade — ele só passa a ser pago com o tempo dela, que também tem um limite.

A forma de calcular: pegue o quanto você quer ganhar por mês (o seu pró-labore) e divida pelas horas produtivas do mês. Não pelas horas totais — tempo de reunião, limpeza, atendimento e administração não produz fatia nenhuma. O Sebrae usa como referência de 6 a 7 horas produtivas por dia. Em 22 dias úteis, isso dá entre 132 e 154 horas produtivas no mês.

### Energia elétrica — sim, isso entra na conta

O cálculo é sempre o mesmo: potência do equipamento em quilowatts, multiplicada pelo tempo de uso em horas, multiplicada pela tarifa que você paga por quilowatt-hora na sua conta de luz.

Um forno elétrico doméstico costuma ter entre 1.500 e 2.000 watts (os maiores chegam a 5.000 watts). Uma batedeira planetária doméstica fica entre 500 e 700 watts. Quarenta minutos de forno mais dez de batedeira, numa tarifa de referência de R$ 0,75 por kWh, custam cerca de R$ 0,98. Dividido pelas 12 fatias da receita, isso é oito centavos por fatia — pouco, mas é dinheiro que sai do seu bolso mesmo assim. A tarifa exata está na sua última conta de luz, não numa média nacional.

### Custo fixo — o que você paga mesmo sem vender nada naquele dia

Aluguel do espaço (ou parte dele, se a cozinha é de casa), água, gás, internet, contador: esses custos existem esteja você vendendo muito, pouco ou nada naquele dia. A forma de trazer isso pra dentro do preço de cada fatia é dividir o total mensal desses custos pelo volume de fatias que você vende no mês. R$ 800 de custo fixo, divididos por 300 fatias vendidas, são R$ 2,67 que cada fatia precisa carregar — antes de qualquer lucro.

Foi exatamente isso que faltou na conta de Marcela: ela somava o preço do morango e da farinha, e parava aí. Embalagem, tempo, energia e aluguel nunca entravam — e é justamente aí que mora a diferença entre o mês cheio de venda e o mês que não sobra dinheiro.

## A ficha técnica de custo — o documento que substitui o chute

Ficha técnica de custo é só isso: uma tabela que reúne cada item que citamos acima, aplicado a um produto específico, até chegar num número final por porção. Depois de pronta, ela nunca mais deixa você chutar — você olha a tabela.

![Gráfico de barra mostrando a composição do preço de uma fatia de bolo vendida a R$ 12,71: 27% ingredientes, 20% mão de obra, 21% custo fixo rateado, 7% embalagem, 1% energia elétrica, 4% imposto e 20% lucro líquido.](https://pivo-cms-uebi.s3.us-east-2.amazonaws.com/media/27c3a320-1216-4980-8af8-b086f97bf493.png)

Veja como isso fica na prática, com a torta de morango de Marcela (receita rende 12 fatias). Os preços de insumo abaixo são um exemplo ilustrativo — troque pelos valores que você paga no seu mercado antes de tirar qualquer conclusão sobre o seu produto:

| Item | Quantidade usada | Preço de compra | Custo na receita (12 fatias) | Custo por fatia |
|---|---|---|---|---|
| Farinha de trigo | 300 g | R$ 6,00 / kg | R$ 1,80 | R$ 0,15 |
| Açúcar | 200 g | R$ 5,50 / kg | R$ 1,10 | R$ 0,09 |
| Ovos | 4 unidades | R$ 12,00 / dúzia | R$ 4,00 | R$ 0,33 |
| Manteiga | 150 g | R$ 12,00 / 500 g | R$ 3,60 | R$ 0,30 |
| Leite | 200 ml | R$ 5,00 / litro | R$ 1,00 | R$ 0,08 |
| Creme de leite | 400 g (2 caixas) | R$ 3,50 / 200 g | R$ 7,00 | R$ 0,58 |
| Leite condensado | 1 lata (395 g) | R$ 7,50 / lata | R$ 7,50 | R$ 0,63 |
| Morango | 500 g | R$ 12,00 / 500 g | R$ 12,00 | R$ 1,00 |
| Fermento em pó | 10 g | R$ 8,00 / 100 g | R$ 0,80 | R$ 0,07 |
| Gelatina incolor (brilho) | 1 envelope | R$ 3,00 / envelope | R$ 3,00 | R$ 0,25 |
| **Subtotal ingredientes** | | | **R$ 41,80** | **R$ 3,48** |
| Embalagem (saquinho + etiqueta) | 1 unidade | R$ 0,90 / unidade | — | R$ 0,90 |
| Mão de obra (1h20 de preparo ÷ 12 fatias) | 1h20 no total | R$ 22,73 / hora | R$ 30,31 | R$ 2,53 |
| Energia elétrica (forno 40 min + batedeira 10 min) | 1,3 kWh | R$ 0,75 / kWh | R$ 0,98 | R$ 0,08 |
| Custo fixo rateado (aluguel, água, gás, internet) | ÷ 300 fatias/mês | R$ 800 / mês | — | R$ 2,67 |
| **Custo total por fatia** | | | | **R$ 9,66** |

**Custo total por fatia: R$ 9,66.** Esse é o número que Marcela nunca tinha calculado — o piso abaixo do qual toda venda dá prejuízo, antes mesmo de pensar em lucro.

### Passo 1 — pese e meça cada insumo da receita inteira

Não estime "um punhado" ou "uma xícara cheia". Use balança e medidor, anote o peso ou volume exato de cada ingrediente na receita inteira, e o preço de compra daquele ingrediente (o valor do pacote, dividido pelo peso do pacote).

### Passo 2 — divida pelo número de fatias que a receita rende

Some o custo de todos os ingredientes da receita inteira e divida pelo número de porções que ela realmente rende — não o número que "deveria" render. Se a receita rende 11 fatias na prática, é por 11 que você divide, não por 12.

### Passo 3 — some mão de obra, energia e custo fixo rateado

Complete a ficha com os itens que não têm nota fiscal, mas têm custo real: seu tempo, a energia do equipamento e o rateio dos custos fixos do mês. É a soma completa que dá o custo real — e é o custo real, não o custo do ingrediente sozinho, que deveria abrir a conta do preço.

## Do custo ao preço — onde entram markup, imposto e taxa de plataforma

Ter o custo (R$ 9,66) é metade do trabalho. A outra metade é transformar esse número num preço de venda que cobre imposto, sobra margem de lucro, e ainda funciona nos diferentes canais em que você vende.

### Markup não é a mesma coisa que margem de lucro

Os dois termos se confundem, e a confusão custa dinheiro. **Margem de lucro** é o quanto sobra em relação ao preço de venda: (Preço − Custo) ÷ Preço. **Markup** é quantas vezes o preço de venda é maior que o custo: Preço ÷ Custo. Não são o mesmo número, e a diferença surpreende: um markup de 50% sobre o custo resulta numa margem real de 33%, não de 50% — quem acha que "trabalha com 50% de margem" porque aplica 50% de markup está, na prática, ganhando menos do que pensa.

O Sebrae recomenda o markup como a ferramenta padrão pra formar preço em pequenos negócios, porque ele embute de uma vez o custo variável, o custo fixo, o imposto e a margem pretendida na mesma conta — em vez de cada um ser calculado separado e torcer pra sobrar alguma coisa no fim.

Na prática, a conta tem só dois passos. Primeiro, um divisor: 1 menos cada percentual que incide sobre o preço de venda (imposto, taxa de plataforma quando existir, e a margem de lucro desejada). Depois, o preço: custo dividido por esse divisor. Aplicando à torta de morango de Marcela, vendida no balcão:

| Passo | Cálculo | Resultado |
|---|---|---|
| Divisor | 1 − 0,04 (imposto) − 0,20 (margem) | 0,76 |
| Preço de venda | R$ 9,66 (custo) ÷ 0,76 | R$ 12,71 |

O mesmo raciocínio vale pra qualquer canal de venda — só muda o que entra no divisor. Vendendo pela entrega parceira do iFood, some também os 26,5% da taxa da plataforma antes de dividir 1:

| Passo | Cálculo | Resultado |
|---|---|---|
| Divisor | 1 − 0,04 (imposto) − 0,265 (taxa iFood) − 0,20 (margem) | 0,495 |
| Preço de venda | R$ 9,66 (custo) ÷ 0,495 | R$ 19,51 |

### Onde entra o imposto — MEI ou Simples Nacional

Se você é MEI, o imposto (DAS) é um valor **fixo por mês**, não uma porcentagem por venda: em 2026, R$ 82,05 para quem só vende produto — R$ 81,05 de INSS mais R$ 1,00 de ICMS, sem a parcela de ISS, que só entra se o negócio também presta serviço. Esse valor fixo funciona como mais um item de custo fixo rateado: divida pelas fatias vendidas no mês, e ele entra na conta igual ao aluguel.

Isso muda quando a empresa sai do MEI — o que acontece ao ultrapassar R$ 81.000 de faturamento no ano (com uma tolerância de até 20% acima disso, R$ 97.200, antes do desenquadramento valer). Uma doceria com produção própria (CNAE de fabricação de produtos de padaria e confeitaria) entra no **Simples Nacional, Anexo I**, com alíquota inicial de 4% sobre o faturamento — aí sim, uma porcentagem sobre cada venda, que sobe conforme o faturamento anual cresce por faixa.

### A taxa da plataforma muda o preço, não só o lucro

Vender pelo aplicativo tem um custo que não existe no balcão — e esse custo muda bastante conforme quem faz a entrega. Na entrega parceira (o motoboy é do próprio iFood), a comissão é de 23% do valor do pedido. Como nessa modalidade todo pedido é pago dentro do aplicativo, soma-se mais 3,5% de taxa de pagamento online — 26,5% no total, mais 2% se você antecipa o repasse pra receber toda semana em vez de esperar o prazo padrão.

Na entrega própria (o motoboy é contratado pelo seu negócio), a comissão do iFood cai para 12%. A taxa de pagamento online de 3,5% continua existindo, mas só incide nos pedidos em que o cliente paga pelo aplicativo, não em todos — então a conta fica entre 12% e cerca de 15,5%, mais 2% se antecipar o repasse. Em ambos os planos, a partir de um certo volume mensal de vendas soma-se uma mensalidade fixa, maior na entrega parceira. O percentual exato e o valor da mensalidade variam por região, categoria e plano contratado — confira sempre no seu Portal do Parceiro antes de fechar a conta.

Qual das duas compensa depende do volume de pedidos. Com poucos pedidos, um motoboy próprio passa boa parte do turno parado esperando, e custa o mesmo parado ou trabalhando — aí a entrega parceira compensa, porque só custa quando existe pedido. Quando o volume sobe, o custo do motoboy próprio se divide em mais entregas, e a entrega própria fica mais barata que os 26,5% da parceira.

O erro mais comum de quem vende nos dois canais é cobrar o mesmo preço no balcão e no aplicativo. Isso não é generosidade com o cliente do delivery — é margem que desaparece sem aviso, porque a taxa da plataforma come uma fatia do preço que, no balcão, ia inteira pro seu bolso. Marcela ainda não tem frota própria, então a entrega parceira (26,5%) é o cenário mais realista pra ela:

| Item | Balcão | iFood (entrega parceira) |
|---|---|---|
| Custo total | R$ 9,66 | R$ 9,66 |
| Imposto (Simples, Anexo I — 4%) | R$ 0,51 | R$ 0,78 |
| Taxa da plataforma (26,5%) | — | R$ 5,17 |
| Margem de lucro (20%) | R$ 2,54 | R$ 3,90 |
| **Preço de venda calculado** | **R$ 12,71** | **R$ 19,51** |
| Preço praticado (arredondado) | R$ 12,90 | R$ 19,50 |

A diferença de quase R$ 6,80 entre os dois preços não é um número inventado — é exatamente o tanto que a comissão da entrega parceira consome, mantendo a mesma margem de 20% e o mesmo imposto nos dois canais. Cobrar R$ 12,90 nos dois lugares significa aceitar uma margem bem menor sempre que a venda sai pelo aplicativo, mesmo sem perceber. Se, mais adiante, o volume de pedidos justificar contratar um motoboy próprio, essa taxa cai para a faixa de 15,5%, e o preço no aplicativo pode se aproximar mais do preço de balcão.

## Por que "no olho" é o jeito mais comum de perder dinheiro sem perceber?

Ficha técnica de custo só funciona se a receita for feita sempre do mesmo jeito. Um produto que muda de porção a cada vez que é feito tem um custo que também muda — e nesse caso, a ficha técnica vira um número bonito no papel que não bate com o que sai da cozinha.

### O exemplo do granulado

Uma decoração de granulado padronizada em 15 gramas por fatia custa cerca de R$ 0,54 (pacote de 500 g a R$ 18). Se, "no olho", às vezes sai um pouco mais generoso — 25 gramas —, o custo daquela fatia sobe pra R$ 0,90. É uma diferença de 36 centavos, que parece insignificante isolada.

Multiplicada por 300 fatias no mês, esses 36 centavos "de olho" viram **R$ 108 de prejuízo silencioso, só nesse item** — dinheiro que não aparece em nenhum relatório, porque ninguém em nenhum extrato registra "gastei mais granulado que o normal". Ele só some da margem, mês após mês, sem deixar rastro.

### Como padronizar porção sem virar fábrica

Padronizar não exige equipamento industrial. Exige três coisas simples: uma balança de cozinha de bolso (custa pouco e se paga sozinha no primeiro mês), uma ficha por produto com o peso exato de cada componente, e o hábito de pesar em vez de "sentir no olho" — mesmo depois de anos fazendo a mesma receita, porque é exatamente a confiança da experiência que faz a mão ficar generosa demais sem perceber.

### A ficha técnica também é o manual de quem vai te ajudar

Um benefício que aparece só depois: quando chega a hora de treinar alguém novo — um ajudante, um segundo turno, um sócio —, a ficha técnica já é o manual de treinamento. Em vez de explicar de memória "põe um pouco disso, um pouco daquilo", você entrega um documento com quantidade exata de cada item. É a diferença entre um produto que muda de qualidade (e de custo) conforme quem está na cozinha naquele dia, e um produto que sai igual, custa igual, e lucra igual, não importa quem fez.

## Faça isso agora

Pegue o produto que mais vende no seu negócio. Sem abrir uma ficha técnica ainda, tente responder de cabeça: quanto custou cada ingrediente que entrou nele, quanto tempo levou pra fazer, e quanto você cobra por ele hoje.

Se você respondeu as três perguntas rápido e com números redondos, vale desconfiar — número redondo demais costuma ser estimativa, não conta. Se você não conseguiu responder nenhuma sem abrir uma calculadora ou ir atrás de uma nota fiscal antiga, isso já é a resposta: seu preço também não foi calculado. Foi chutado, com a mesma confiança de quem calcula — só que sem a mesma segurança por trás.

## As objeções que toda dona de doceria já pensou

**"Já uso uma tabela de precificação pronta que baixei na internet."** Uma tabela genérica assume um custo de energia, de aluguel e um tempo de preparo que não são os seus. Ela serve de ponto de partida, nunca de resposta final — os números da sua ficha técnica têm que ser os do seu forno, do seu aluguel e da sua receita.

**"Se eu cobrar o preço certo, ninguém compra — o preço do concorrente é menor."** Duas coisas podem estar acontecendo: ou o concorrente também está errando (e vai descobrir isso quando fechar as portas, não quando você cobrar o preço certo), ou ele realmente tem um custo menor que o seu, e nesse caso o problema não é o preço — é a estrutura do seu negócio, que pede outra conversa, não um preço artificialmente baixo pra compensar.

**"Meu negócio é pequeno demais pra ficha técnica — isso é coisa de indústria."** É o contrário: quanto menor o negócio, menor a margem de erro que ele aguenta. Uma indústria grande absorve um erro de precificação em algumas linhas de produto sem quebrar. Um negócio pequeno, com um produto carro-chefe, não tem essa gordura — é exatamente por isso que precisa da ficha técnica mais do que ninguém.

**"Não tenho tempo pra pesar cada grama toda vez que eu cozinho."** A ficha técnica se monta uma vez por produto, não a cada fornada. Depois de pronta, pesar os insumos na hora de cozinhar não leva mais tempo do que "colocar no olho" — leva o mesmo tempo, com a diferença de que agora o resultado é sempre o mesmo.

**"Meu contador já cuida dos impostos, não preciso saber esse valor."** O contador calcula e recolhe o imposto certo — isso continua sendo trabalho dele. Mas ele não sabe, e não é função dele saber, quanto custa a sua fatia de bolo. Sem esse número, nem você nem ele conseguem saber se o preço que você cobra paga o imposto e ainda sobra alguma coisa pra você.

## O que muda quando você pensa em contratar alguém

A ficha técnica de custo não serve só pra definir o preço de um produto — ela é a base de qualquer decisão de crescer, incluindo a de contratar. A margem de contribuição que ela revela é um dos [números que decidem se uma empresa pequena sobrevive](https://uebi.com.br/blog/10-numeros-que-decidem-se-sua-empresa-sobrevive/), e é justamente o número que a maioria não acompanha.

Cada fatia vendida por R$ 12,71 sobra, depois de descontar só os custos que variam com cada venda (ingrediente, embalagem, mão de obra e energia — R$ 6,99 no total), uma margem de contribuição de R$ 5,72. É esse valor, multiplicado pelo volume vendido no mês, que precisa cobrir todo o custo fixo do negócio — e qualquer custo fixo novo que a empresa assumir, como o salário de um ajudante.

Com 300 fatias vendidas no mês, a margem de contribuição total é R$ 1.716. Se o custo fixo atual (R$ 800) somado ao custo de um ajudante (por exemplo, R$ 1.500 com encargos) passa de R$ 2.300, esse volume de vendas não sustenta a contratação — faltam R$ 584 por mês. Contratar, nesse cenário, exigiria vender cerca de 402 fatias por mês só para cobrir o novo custo fixo, não as 300 atuais.

Essa é a conta que decide se uma contratação vai fortalecer o negócio ou afundar o caixa — e ela só existe se a ficha técnica de custo já existir antes.

## A virada

Quando Marcela finalmente monta a ficha técnica da torta de morango, ela descobre uma coisa que não esperava: o produto que ela mais vende, o que faz fila no balcão, não é o que dá mais lucro por fatia. Um bolo simples de fubá, que ela vende bem menos e sempre achou "sem graça", tinha uma margem real maior — porque o custo dele era menor e ela nunca tinha calculado nenhum dos dois.

A torta de morango continuava valendo a pena vender — só não pelo motivo que ela pensava. E o bolo de fubá, que ela quase parou de fazer por achar que "vendia pouco", passou a ganhar mais espaço na vitrine.

## O preço certo não é sobre cobrar mais — é sobre saber o que você está cobrando

A pergunta que abriu este artigo não era "quanto você deveria cobrar". Era se você sabe, de verdade, quanto custa o que você vende. Fila no balcão prova que as pessoas gostam do produto. Não prova que o preço está certo — só a ficha técnica prova isso.

Marcela não precisou cobrar mais caro pra virar o jogo. Precisou saber exatamente quanto cada fatia custava, pra parar de adivinhar se estava ganhando ou perdendo dinheiro a cada venda.

## Perguntas frequentes

**Preciso ter CNPJ ou ser MEI pra calcular ficha técnica de custo?** Não — o cálculo de custo por porção vale pra qualquer estágio do negócio, inclusive antes da formalização. O que muda com o MEI ou o Simples Nacional é só a linha do imposto dentro da ficha, não o método.

**Meu preço já está definido há anos — vale a pena recalcular do zero?** Vale, principalmente se o preço de algum insumo mudou nesse período (e quase sempre mudou). É comum descobrir que um produto vendido há anos pelo mesmo valor foi perdendo margem aos poucos, sem nenhum ajuste — só porque o preço da farinha ou da embalagem foi subindo enquanto o preço de venda ficou parado.

**Preciso recalcular a ficha técnica toda vez que o preço de um ingrediente mudar?** Não é preciso refazer a ficha inteira a cada compra — mas vale revisar os itens de maior peso (normalmente os ingredientes principais) a cada poucos meses, ou sempre que notar uma alta relevante no mercado. Uma ficha técnica de dois anos atrás, numa economia com inflação, quase certamente não reflete mais o custo real de hoje.

## O próximo passo

O primeiro passo não é mexer no preço agora — é montar essa ficha técnica pra um produto só, esta semana. É o exercício da seção "Faça isso agora", logo acima, e ele já mostra se o problema é maior do que parece.

Se o que você descobrir, no meio desse exercício, for que o seu cardápio muda de preço toda semana — porque o custo do morango, do chocolate ou da farinha sobe — e ainda assim ele circula como foto ou PDF num grupo de WhatsApp, isso também custa dinheiro, do mesmo jeito que o granulado no olho custa: sem aparecer em nenhum extrato. É um problema que a Uebi ajuda negócios de alimentação a resolver — veja [como a Uebi trabalha com restaurantes e negócios de comida](https://uebi.com.br/segmentos/restaurantes/).

## Fontes

- Sebrae PR — [Entendendo o CMV de restaurante: como fazer o cálculo e sua importância](https://sebraepr.com.br/comunidade/artigo/entendendo-o-cmv-de-restaurante-como-fazer-o-calculo-e-sua-importancia)
- Sebrae PR — [Domine a matemática do seu tempo: calculando o valor real da sua hora trabalhada](https://sebraepr.com.br/comunidade/artigo/domine-a-matematica-do-seu-tempo-calculando-o-valor-real-da-sua-hora-trabalhada)
- Conta Azul (citando metodologia do Sebrae) — [Entenda a diferença entre markup e margem de lucro](https://contaazul.com/blog/entenda-a-diferenca-entre-markup-e-margem-de-lucro/)
- Receita Federal — [Simples Nacional: valor do DAS para o MEI](https://www8.receita.fazenda.gov.br/simplesnacional/noticias/NoticiaCompleta.aspx?id=c3b2044c-ff97-432a-b33c-ecf2a3df6dc3)
- Contabilidade.com — [CNAE 1091-1/02: fabricação de produtos de padaria e confeitaria com predominância de produção própria — enquadramento e desenquadramento do MEI](https://contabilidade.com/blog/cnae-1091102-fabricacao-de-produtos-de-padaria-e-confeitaria-com-predominancia-de-producao-propria-pode-ser-mei-quanto-paga-e-quando-desenquadrar-do-mei/)
- Techtudo — [Quanto gasta um forno elétrico: saiba calcular a energia do aparelho](https://www.techtudo.com.br/guia/2025/10/quanto-gasta-um-forno-eletrico-saiba-calcular-a-energia-do-aparelho-lb.ghtml)
- Blog Le Biscuit — [Qual a potência ideal de uma batedeira](https://blog.lebiscuit.com.br/potencia-ideal-da-batedeira/)
- Administradores.com, citando dados do Sebrae — [Principais fatores causadores da mortalidade precoce das micro e pequenas empresas no Brasil](https://www.administradores.com.br/artigos/principais-fatores-causadores-da-mortalidade-precoce-das-micro-e-pequenas-no-brasil)
- Brendi — [Taxa do iFood para restaurantes com delivery: guia para 2026](https://brendi.com.br/blog/taxa-ifood-restaurantes-delivery-2026/)

Os percentuais de taxa do iFood citados neste artigo (23% de comissão na entrega parceira, 12% na entrega própria, mais 3,5% de taxa de pagamento online e 2% adicionais em caso de antecipação de repasse) seguem a mesma estrutura confirmada por levantamento especializado do setor de delivery — não a página oficial do iFood, que exige login de parceiro para exibir o percentual exato. A tarifa de energia elétrica usada no exemplo é uma faixa de referência para o Espírito Santo. Ambos variam por plano, categoria, região e concessionária — confirme sempre no seu Portal do Parceiro e na sua própria conta de luz antes de fechar a conta do seu produto.
